Boicote, petições, canção: Afinal, como é a participação de Israel no Festival da Eurovisão?

Boicote, petições, canção: Afinal, como é a participação de Israel no Festival da Eurovisão?

Depois de um ano de 2025 recheado de acontecimentos, a delegação israelita prepara-se para participar no concurso, que vai realizar-se em Viena, na Áustria, em meados de maio.

Um Olhar Europeu com Franceinfo /
Hans Klaus Techt / AFP



Peter Gabriel, Roger Waters, Massive Attack... O alinhamento seria espetacular se se tratasse de um festival de verão. Mas são estes artistas, mais de mil no total, que apelam ao boicote da Eurovisão devido à participação de Israel, assinando um texto intitulado "Não à música para o genocídio", na semana passada. 

O concurso terá lugar entre 12 e 16 de maio em Viena, Áustria, e, por enquanto, a delegação israelita prepara-se como se nada tivesse acontecido (ou quase), a poucas semanas do Festival Eurovisão da Canção 2026.
Uma canção que é tudo menos polémica
Em 2025, Israel foi representado na Eurovisão por Yuval Raphael, um sobrevivente dos atentados terroristas de 7 de outubro. Nesta edição de 2026, será o cantor Noam Bettan a defender a bandeira de Israel. 

Foi selecionado, como é habitual, depois de ter vencido o equivalente em Israel do American Idol. O artista, cuja família é originária de França, interpretará "Michelle" no palco vienense. Não é um cover dos Beatles, mas uma canção escrita por vários autores, incluindo Yuval Raphael.

A letra de "Michelle", em francês (muito), hebraico e inglês (um pouco), evoca a dificuldade de recuperar de um amor tóxico, sem qualquer alusão à guerra em curso, ao contrário das duas últimas atuações israelitas no concurso. 

Por isso, nada tem a ver com a edição de 2024, quando a concorrente israelita Eden Golan teve de trocar a canção October "Rain" por "Hurricane", após a polémica sobre uma possível referência aos ataques de 2023 no título e na letra.

Com "Michelle", a escolha de uma melodia pop e quase doce é tudo menos trivial, admitiu Noam Bettan na televisão pública, Kan, citado pelo The Times of Israel: "É uma canção incrível. Nos últimos anos, temos enviado muitas baladas. Os israelitas procuram um tipo de energia diferente. Queremos ser felizes, o país inteiro está sedento disso", argumentou o cantor, saudando uma canção "que toca toda a gama de emoções".

"Simples, mas não simplista, feita à medida do cantor carismático, produzida no espírito agitado dos nossos tempos, mas mantendo a suave névoa de fumo de cigarro de uma brasserie parisiense dos anos 70", considera o popular diário israelita Yediot Aharonot. Israel está, portanto, confiante na hipótese de vitória após uma série de lugares de honra.Regras alteradas para aliviar as tensões
No final do último concurso, a tensão era visível entre os países participantes, entre os que apoiavam o princípio da inclusão de Israel no concurso (França, Alemanha, Áustria...) e os que queriam ver o país excluído para denunciar as ações do governo de Benyamin Netanyahu em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. 

Cinco desses países bateram com a porta, e não pouco importantes: a Irlanda (sete vitórias na Eurovisão), os Países Baixos (cinco êxitos), a Espanha (membro dos "Big Five", o grupo de países que mais contribuem), a Eslovénia e a Islândia.

No entanto, uma série de alterações às regras convenceu outros países importantes, nomeadamente escandinavos, a manter a participação. 

A partir de agora, cada telespetador só tem direito a dez votos e serão tomadas medidas para "detetar e impedir qualquer atividade de votação fraudulenta ou coordenada", para além de um melhor controlo para evitar "campanhas promocionais desproporcionadas", como as realizadas pelo Estado hebraico para apelar ao voto em Yuval Raphael no ano passado. O candidato israelita ficou em segundo lugar no concurso, subindo do 15º lugar graças ao voto do público (e, em especial, a uma mobilização espetacular dos telespetadores europeus).

Nos bastidores, foram tomadas várias medidas para baixar a temperatura. 

Em 2024, o cantor holandês Joost Klein foi excluído na sequência de um incidente e de tensões com a delegação israelita. Foram criadas zonas livres de câmaras para os artistas, bem como mais ensaios sem a presença da imprensa. A ORF, emissora pública austríaca, comprometeu-se a não utilizar tecnologia para abafar os assobios e a não proibir as bandeiras palestinianas, como noticiou a agência Reuters em meados de dezembro.

Noam Bettan está à espera de cantar num ambiente, no mínimo, hostil durante a meia-final. Vai ser como entrar na cova dos leões", diz o cantor israelita numa entrevista à rádio Kan Gimmel. "Mas posso dizer-vos que, quando vir as poucas bandeiras israelitas no público, saberei que tenho uma nação inteira a apoiar-me. É realmente um privilégio".Agitação entre os artistasAo contrário da petição assinada por mais de um milhar de artistas, existe também uma contra-petição que apela ao apoio à presença do Estado hebraico no concurso. "Esta série de combates não é uma guerra que Israel quis ou começou", lê-se no texto, redigido pela ONG Creative Community for Peace e assinado por artistas como os atores Mila Kunis e Liev Schreiber e o argumentista Matthew Weiner. "Punir Israel seria uma inversão da justiça", argumentam. "Os que pedem a exclusão de Israel vão contra o próprio espírito do concurso e desviam este evento, que celebra a unidade, para o transformar num instrumento político".

Vários participantes na competição de 2026 manifestaram desconforto por competir no mesmo palco que um concorrente israelita. 

A violinista finlandesa Linda Lampenius começou por descrever a participação israelita nas redes sociais como um "erro" e denunciou a situação "desumana" na Palestina no final de fevereiro, antes de voltar atrás. Numa entrevista ao canal YouTube Curiously, em meados de abril, Lampenius afirmou que a música não deve estar ligada à política, antes deve apelar a que as pessoas não "odeiem" os candidatos devido à sua nacionalidade.

A cantora Felicia disse à televisão sueca que Israel "não devia estar presente [na Eurovisão]. Estão a acontecer muitos assassinatos e não acho que isso seja uma coisa boa". Os seus comentários valeram-lhe uma chamada de atenção por parte da EBU. "Deixei claro que tinha a minha opinião e que não hesitaria em expressá-la", insistiu a sueca numa entrevista ao jornal Aftonbladet.

Pierre Godon, France Télévisions / 26 abril 2026 06:34 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP 
Tópicos
PUB